Criação

Criação O cristianismo rejeitou o conceito da matéria me-ôntica apoiando-se na doutrina da criação ex nihilo. Criação ex nihilo significa que Deus criou todas as coisas, não utilizando uma matéria pronta ou dada, como o demiurgo de Platão. A matéria não é um segundo principio ao lado de Deus. Ela não faz oposição contra Deus, como alguns ainda pensam, imaginando um mundo separado de Deus. Um mundo fora de Deus seria apenas um outro deus, ou, como acreditam maniqueístas, um anti-deus ou demônio. Com isto surgiram vários problemas dialéticos sobre o não-ser. Quando se argumenta que tudo, o mundo como um todo, precisa vir necessariamente de Deus, tem-se um novo problema: de onde surge o mal? Este poder de não-ser teria uma realidade própria, como argumentavam os maniqueístas? Os antigos cristãos não queriam afirmar que o pecado carecia de uma realidade, como algo sem importância ou relevância. Na verdade, carece de status ontológico positivo. O pecado seria resistência contra o ser e perversão do mesmo. Sem um fundamento positivo, a realidade do pecado está baseada na distorção: o pecado distorce aquilo que é o ser, é como uma tentativa de se desgarrar do fundamento positivo de todas as coisas. Ser criado do nada significa voltar ao nada. A existência passa a ser dependente daquilo que lhe dá fundamento. A caraterística do ser é proporcionar a existência. O pecado é a continua rebeldia contra o ser, a essência de todas as coisas e, com isso, uma tentativa de se afirmar o nada, ou a inexistência. Todos enfrentamos este medo do nada, que acaba se relacionando com a culpa. O pecado afirma o nada, a inexistência, o sair do fundamento de todas as coisas. Por isso o cristianismo rejeita o Arianismo, que considerava o Logos como mais elevada das criaturas. Se Cristo é mais uma criatura: ou um ser humano adotado por Deus, ou uma espécie de semi-deus, alguém que é menor do que Deus, mas maior que a humanidade, não possui fundamento em si, vem do nada como toda a criatura. Quem vem do nada, não pode doar vida eterna. Quem também foi criado não pode ser fundamento eterno para ninguém. Como aquele que não possuí o ser em si poderia ser Novo Ser para outros na mesma condição? É por isso que o Cristianismo afirma o dito no quarto evangelho. No princípio era o Logos, o Logos estava com Deus e o Logos era Deus. Tillich, Paul. Teologia sistemática, sétima edição. 2014.

Comentários